sábado, 2 de outubro de 2010

Elissa

22 anos, aparentemente livre, sempre sorridente, apesar das constantes dores nos ombros. Inglês razoável francês péssimo, bom português, gramática impecável. As ondas do cabelo exalam camomila.

Sente saudades do cáfe, da textura da areia e do frescor da água marinha em seus pés, do cheiro de chuva, do que não aconteceu (ainda!, ela garante).
Sua mania desorganizada de organização irrita. Tranca a porta do apartamento três vezes antes de dormir. Tenta não respingar pasta de dente na blusa, mas sempre se suja. O esmalte nas unhas faz parte de sua diversão semanal, as cores são de acordo com a energia que transmite e deseja sentir.

Nunca se importam com o que ela quer, se preocupam em dizer o que, segundo eles, ela deve fazer. E dessas receitas sabe de cor. Mas hoje não se importa, não se ilude e nem chora por pouco, a não ser que assista uma comédia romântica água com açucar quando está com TPM.

Sente falta do que a fazia ficar com raiva e não assume, não se sente confortável em lugares cheios de pessoas com comportamentos descartáveis, não bebe muito pra não passar mal, o de sempre.

Quanto ao amor, sua avó disse que pra organizar a "vida", deve-se começar pela cama. "Certo, tá organizada. Mas e aí? Eu organizo e ele me desorganiza. Às vezes parece que eu não penso! Eu deveria ir embora..." E pensa em o quê e como fazer, já que algumas pessoas não merecem ou simplesmente não precisam conviver com sua dor.

Reparou que não há ninguém além dele que a faça o querer mais, mesmo querendo o querer menos. Relação confusa e disforme como suas idéias, juízos, pensamentos, insights. "Você é péssimo e eu devo ser pior ainda, só pode!" E insiste. Mesmo sabendo que "l'amour, hum hum, pas pour moi."
Até onde vai ninguém sabe, nem ela mesma. Mas vai. Uma hora pára...ou não. Né, Elissa?
"Hum?"

Segue movida pela esperança de sentir o frescor da água marinha novamente, ter a tranquilidade de degustar seu café e desconfundir o que a tira do sério.
Acho que ela não vai embora.

Um comentário:

Mateus Orio disse...

Os bicharêdos estão à solta!
Nunca se sabe o que vai acontecer, mas sempre se pode explicar o que aconteceu de diversas maneiras. Um dia você acorda e percebe que não é mais o mesmo e consegue entender que um dia vai morrer. Mas então tudo aquilo que viveu já está muito distante. O mundo não é mais o mesmo, o que importa?
"Nada faz a menor diferença quando a gente pensa no que ainda pode ser"